“Estou me sentindo como um objeto quase nos seus últimos dias úteis. Não por estar ficando cada dia mais velho, e sim por estar insistindo na mesma coisa o tempo todo.”— Carlos Eduardo Saltzman.
“Eu estava me sentindo só e todo mundo desmorona às vezes.”— Ed Sheeran.
eu já fui algo, eu já fui alguém.
alguém alegre e encantador, que tinha sonhos e idealizações, que podia conquistar tudo com seu animo. mas isso mudou. ninguém entende a devastação que aconteceu, onde minha personalidade foi completamente arrancada de mim e hoje eu só vivo imitando as lembranças que tenho da pessoa que fui. é o vazio na sua forma mais pura, viver no automático sem sentir, sem ser realmente algo. é difícil de explicar e mais ainda de vivenciar.
completada de ansiedade e depressão, não reconheço o que é certo para mim. agindo completamente no freestyle esperando que de certo.
o vazio interno se perpetua pelos anos, nada o preencheu, não importa o quanto eu tente.
“Tô tentando ver o lado bom dessa situação. Tô fingindo que não me afeta e que eu não estou devastada por dentro. Ando carregando a minha dor por aí, mas tudo que conseguem ver é o amor que transmito. Porque, eu tô tentando ver o lado bom dessa situação. Apesar de não ter enxergado nada até agora.”— Milena Borges.
eu deixei o autocuidado em níveis maiores,
passei a agir como se tudo fosse normal no meu mundo encantado.
não durmo mais que três horas? normal.
não me reconheço quando me olho? normal.
compulsividade por compras? normal.
mudanças de humor repentinas? normal.
relacionamentos e ações autodestrutivas? normal.
na minha cabeça eu sou perfeitamente normal e todos os meus problemas psicológicos me acompanham na normalidade.
Estar aqui é a vontade incessante de voltar no passado onde tudo era tão mais simples e fácil de resolver. Por mais que aos 12 anos eu achasse que meu mundo ia acabar por qualquer situação, eu ainda quero voltar. Quero poder agir com mais calma e mais respeito.
Se eu pudesse falar com a Maria do passado, eu diria a ela que amor próprio é a chave. Mas eu explicaria com cuidado que amor próprio não tem a ver só com a aparência, porque de nada adiantou expor seu corpo em forma de protesto.
Amor próprio é se respeitar, respeitar seus limites e o tempo que você tem para aceitar você mesma. É se perdoar do que já fez, e aprender com os erros pra não se machucar mais. É ser um pouco egoísta também, o seu sentimento importa e é você que deve se preocupar com ele. E o mais importante, é preencher o buraco do peito com você mesma.
Um ponto chave de virada para a minha vida foi um abuso que sofri dos 13 aos 14 anos. É difícil colocar em palavras o quanto aquilo me afetou. Eu nunca fui uma menina que se achava bonita, me lembro que antes disso eu já me via como a DUFF, porque eu nunca fui o suficiente. Mas eu tenho certeza que se eu nunca tivesse sido abusada as coisas seriam mais fáceis.
É difícil explicar porque ninguém sabe a extensão do dano porque nunca contei a verdade. Mas aqui eu vou contar. Eu não me lembro de todas as noites e nem quero falar sobre isso porque isso me engatilha em lugares que não estou pronta para abrir…
Mas posso falar das consequências.
A primeira é a culpa. Eu me culpei e ainda me culpo as vezes, mesmo sabendo que não foi eu que me abusei. Eu só penso que eu poderia ter acabado com aquilo antes, que o dano seria menor se eu tivesse tido coragem.
A segunda é que desenvolvi insonia, porque meu abusador dormia no mesmo quarto que eu e sempre me abusava enquanto eu estava dormindo. A minha solução foi não dormir.
A terceira é que eu não conseguia gozar com outra pessoa. Isso, acumulado com minha baixo autoestima e a necessidade do contato físico para me sentir bem, fez eu me relacionar com diversos caras sexualmente em busca do minimo afeto. Tudo isso sem sentir nenhum prazer. Nada. Era como se não funcionasse.
A quarta é relacionada com a primeira, pois eu deixei de ser corajosa. Eu não fui nem quando contei sobre o abuso já que eu nunca contei tudo que aconteceu para ninguém. Eu fiz terapia sem tocar nesse assunto por anos. Eu perdi a coragem de enfrentar as coisas e as pessoas. Isso me tornou uma pessoa extremamente submissa a vontade alheia.
O abuso tirou de mim a chance de me recuperar de uma infância regada a bullying. A depressão aos 16 tirou de mim a chance de me recuperar do abuso. O relacionamento conturbado que vivi aos 20 me tirou a chance de me recuperar da depressão…
Eu sou uma bolha de traumas que se sucederam até chegar ao meu eu atual.
Eu to tentando resolver isso, eu acho que consigo se eu me esforçar. Todos os conselhos para a Maria do passado eu estou usando para a Maria do presente. Eu ainda sou nova e sou capaz de mudar o meu futuro para os meus traumas não me definirem mais.
Eu só espero que da próxima vez que eu sentir vontade de vir aqui, seja para escrever algo sobre amor como eu fazia antes